Meu Macaco = Seu Deus

Estava num lançamento de livro e participei de um bate-papo. Aventei a alguma teoria antropológica e não sei por que cargas d´água, aludi a natureza humana como proveniente de macaco. Em nenhum momento contrapus nada, nem quis ferir susceptibilidades. Até que ao final do lançamento, uma pastora (muito simpática por sinal) inquiriu-me acerca do meu ponto de vista. As perguntas são todas aquelas pelas quais os ateus passam: “Você afirmou que viemos dos macacos?”; “O que pensa do final da vida, morre-se e pronto?”; “Isso não é muito pouco?”. “Você compara Deus a um macaco?”.

Respondi antropológica e biologicamente. Sim, viemos do macaco. Simples assim. Mas a pastora não se deu por satisfeita e exclamou: “Isso não pode ser!”. Cortei a discussão, até pelo fato de não levar a absolutamente lugar nenhum. Aliás, minha última frase foi emblemática: “Pastora, o meu Macaco é o seu Deus!”. E ponto.

O diálogo foi de alto nível, mas me fez aludir a algo interessante: do mesmo jeito que é cretino um ateu desancar as crenças de quem quer que seja, é notório que alguns religiosos querem desafiar as crenças daqueles que não creem em um divino, um eterno, um transcendente. Aliás, usei propositalmente a palavra creem, pois até um ateu é crente. Ele crê em seu ateísmo.

Há tempos, assisti ao programa Metrópolis, da TV Cultura, e quem foi entrevistado foi o humorista/ator/escritor/poeta Gregório Duvivier, mais conhecido pelo público pelo famoso Porta dos Fundos. Confesso que não assisto muito a esses vídeos que bombam na internet, mas esse não é o caso. Fiquei admirado pela inteligência de Gregório, e num de seus trechos, diz que procura fazer piadas daqueles que estão no poder, dessas pessoas que se levam a sério demais e não possuem senso de humor. Fiquei chocado quando ele afirmou que estava sendo processado por entidades religiosas e pelo pastor deputado Marco Feliciano por fazer piadas sobre Jesus Cristo. Gregório afirmou a intolerância religiosa e o poder de autoridade daqueles que detém o status quo. Segundo ele (e eu concordo) Jesus Cristo é uma figura de domínio público, e certamente eu, MPR, só admitiria receber processo de um parente direto de Jesus. Mas processos judiciais não se admitem, apenas se respondem.

Percebo nessas atitudes, notadamente a do homofóbico Marco Feliciano, a tentativa de se fazer uma Inquisição disfarçada. Isso tudo vem em contraponto à figura calma e tolerante de um Papa Francisco, que certamente não parece ter o perfil de mandar hereges para os ferros. O adjetivo tolerante que usei para o Papa deve significar o mesmo tipo de atitude respeitosa que devemos manter entre irmãos. Como humanista convicto, apregoo que não há diferença alguma entre todos nós, que fazemos parte de uma mesma irmandade. Que respeitemos opiniões divergentes das nossas, pois não seria muita prepotência entendermos que somos mais espertos e inteligentes que os outros? Prometo não participar mais de nenhuma discussão religiosa (o fiz por vias indiretas, admito) e se participar, prometo iniciar e encerrar com uma frase apenas: “O seu Deus = O meu Macaco”.

Simples assim.

Marcelo Pereira Rodrigues (MPR)
www.marcelopereirarodrigues.com.br
www.revistaconhecete.com.br

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