Quatro Galinhas & Um Sábio

Cenas de aeroporto. Estava com minha namorada em Guarulhos e no portão de embarque para Belo Horizonte. A etapa final de nossa viagem de retorno. Não preciso dizer que estávamos cansados, doidos para chegarmos em casa, mas mesmo assim, estava calmo e paciente, ainda mais que levara para esta viagem a Lima o livro Meditações, do filósofo e imperador romano Marco Aurélio (121-180) e isso foi uma decisão sábia.

Leiam este pensamento dele: “Quem preferiu a sua própria inteligência, o seu nume e o culto da dignidade deste, não encena dramas, não dá gemidos, prescindirá do isolamento e da multidão; o que é mais, viverá sem perseguir nem fugir. Absolutamente não lhe importa seja maior ou menor o lapso de tempo em que há de usufruir da alma que seu corpo reveste. Se houver de retirar-se já, partirá com o mesmo desembaraço com que iria a qualquer das outras operações que se podem realizar com discrição e decoro. Durante a vida toda não terá outra cautela senão a de preservar sua inteligência de toda alteração imprópria do animal racional e social”.

Pois bem, estava no aeroporto procurando exercitar na prática o que tinha lido em teoria, e a esclarecer que o livro passa ao largo de ser um livro de autoajuda, é na verdade um roteiro para aceitarmos as coisas como elas são. Uso da razão, em todas as situações. E foi assim, resignado, que ouvi pelo microfone da LATAM que o nosso voo atrasaria. Sentei-me na mala e fiquei observando aquele mundaréu de gente, e cheguei até a cogitar se o fato de ser um inveterado viajante e esses percalços pelos quais a gente passa. Se fosse um matuto homem do campo que vivesse entre seus porcos, suas hortaliças e suas galinhas, certamente a essa hora já estaria deitado e dormindo o sono dos justos. Sim, eram mais de vinte e duas horas.

Acalmei minha namorada esclarecendo a ela sobre tráfego aéreo, e sobre aspectos da aviação os quais não sei absolutamente nada, mas o antídoto funcionou e ela ficou aparentemente calma também. Ela possui a estranha mania de fazer o sinal da cruz e rezar quando a aeronave vai decolar. Eu prefiro acreditar nos engenheiros de aviação. No saguão, passei a observar o comportamento de algumas pessoas e foi quando constatei o óbvio. As pessoas que sinceramente parecem não usar a razão. Dois rapazes metidos reclamavam entre si que nunca mais voariam com a LATAM, que esse atraso era um absurdo, que a companhia era péssima, e falavam em voz alta que já estavam viajando há muito e o quanto era difícil chegar a Belo Horizonte. Pensei imediatamente no conceito de Luiz Felipe Pondé quando ele afirma a banalidade da “classe média feliz”, bom, nesse caso, infeliz. E claro, estavam chamando a atenção para si e desconfio de que sejam rapazes pobres que viajaram de avião pela primeira vez e dividiram o voo em seis vezes no cartão. Duas outras mulheres, que pareciam ter vindo da Bahia, sendo que uma estava com os peitos praticamente de fora, começaram a fotografar o portão de embarque, as pessoas que ali estavam, os funcionários da companhia aérea e a reclamarem, logicamente. Será que elas mandariam material para o Jornal da Globo News? Um verdadeiro tumulto!

Foi quando resolvi me desligar daquela energia ruim toda e a rememorar passagens do estoico Marco Aurélio. Aceitar as coisas como elas são. Mudei o meu foco de observação e reparei em um senhor que aparentava ter uns 75 anos, muito bem vestido e, que de pé, conversava animadamente com um outro senhor e falava acertadamente sobre tráfego aéreo, condições meteorológicas, e tudo num discurso sensato e lógico. Um verdadeiro sábio, e me senti orgulhoso de estar tão calmo quanto ele. Pensando: pois bem, já estou aqui no portão de embarque, se a aeronave está atrasada, uma hora ela irá sair, e esperarei a hora certa para estar dentro dela quando ela decolar. Viram como é simples? E dizer que é uma sacanagem alterar o tom de voz com funcionários tão bem-educados e prestativos quanto os da aviação, sejam eles da LATAM, Gol, Azul, Iberia, TAP, Aerolíneas Argentinas etc.

Analisando algumas pessoas de forma geral, e nomeando-as “galinhas”, não as adjetivo como forma de desonra pessoal, mas faço a metáfora dessas aves que ficam ciscando, ciscando, e parecem não sossegarem nunca. O senhor sábio de 75 anos bem pode ser a coruja, que com a sua arguta observação, reflete sobre tudo. Fomos para a fila quando os funcionários da LATAM nos orientaram a formarmos filas para quem iria despachar malas e para aqueles que, como eu e minha namorada, estávamos apenas com malas de mão. Foi quando pensei se as quatro galinhas cacarejantes poderiam ser consideradas malas e viajarem no compartimento de cargas.

Sem maiores atribulações, o voo não atrasou nem cinquenta minutos e correu tudo bem, exceto por um ato inteligente do piloto. Que só vim a descobrir depois. Quando estávamos quase chegando a Confins, ele nos agradeceu e esclareceu que o serviço de bordo não havia sido oferecido pois o avião passara por uma pequena turbulência. Senti mesmo a turbulência, mas aposto que propositalmente o piloto deu um “cavalo de pau” no avião para justificar esse não serviço de bordo. Acertada decisão. Quase 11 horas da noite, num voo de pouco mais de uma hora era desnecessário mesmo um copo de Coca-Cola e um pacotezinho de salgadinhos. Será que eu acertei nessa minha “teoria da conspiração”? CPI no piloto! Pois bem, afirmo categoricamente que continuarei voando com a LATAM, com a Gol, com a TAP, com a Iberia, no teco-teco do Santos Dumont e talvez um dia no meu jatinho particular, ou talvez mude de ideia e passe a agir como um matuto que quando muito viaja 10 km a pé do seu pequeno sítio à cidade com pouco mais de 3 mil habitantes. Quem sabe um dia eu pare de vender livros e comece a vender hortaliças?  

Marcelo Pereira Rodrigues (MPR)
www.marcelopereirarodrigues.com.br
www.revistaconhecete.com.br

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