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Marcelo Pereira Rodrigues (MPR)

Luzicleide começou a semana alvoroçada. Preparou-se com afinco e ansiedade para o show que Luan Santana faria no parque de exposições da cidade onde morava. Amava o cantor. Entoava os refrões de suas canções e intentava ficar na grade em frente ao palco, para não perder nenhum detalhe do show. Logo na segunda foi à lotérica sacar o benefício do Bolsa-Família, duzentos e dez reais referente à prole de três filhos, um com um namorado que estava preso (por tráfico de drogas), outro com um ficante e mais um outro que ela não tinha certeza. Mas não julguemos Luzicleide. A moça, na casa dos seus vinte anos, comprou o ingresso, foi à loja de esmaltes e condicionadores, comprou alguns apetrechos de modo a se preparar para o evento. Pagou antecipadamente a priminha para ficar de babá no dia do show, e com a ajuda da mãe e da tia, enfim, estava tudo acertado.

No dia do show, engraxou as botas. Fez as unhas. Estrearia roupa nova, comprada numa loja de confecções com preços bem populares (dividiu o carnê em seis prestações de R$ 42,40). Animada, começou a ouvir no CD paraguaio as pérolas: “Ela é uma mulher menina / Que precisa urgentemente ser mais forte / Ela quer alguém que leia seu sorriso / Antes de olhar o seu decote / Ela vê suas amigas se entregando / Ao primeiro que aparecer / Numa tentativa boba de se preencher”. E numa outra canção: “Eu, você, dois filhos e um cachorro / Um edredom, um filme bom no frio de agosto / E aí, cê topa?”. E a zoeira continuou tarde adentro, com Luzicleide, Marinete, Lausdineia e Marizete (suas irmãs e cunhadas) tomando cerveja Schin de latão. Marizete arrumou o seu cabelo, e lá pelas onze da noite Luzicleide chamou o moto táxi (como suas amigas e parentas iriam de carona, ficaram de se encontrar lá). E na portaria se deu a reunião.

Luzicleide cismou de comprar um chapéu de caubói e foi tomar algumas doses de bebida quente. Percebeu que ninguém reparara as suas botas e que gastara graxa à toa. Foi sondada, admoestada, paquerada e acabou ficando com um rapaz que foi perspicaz na cantada: “Ei, gatinha assanhada, vem ficar com o seu Tigrão!”. Como o rapaz já chegou chegando, e a prensando e segurando o seu cabelo, Luzicleide entendeu que ele a merecia. Dirigiram-se para a arena, cheia de poeira, e logo Luzicleide percebeu que ninguém ali perceberia as suas roupas compradas na loja de confecção. Foi beijada, abraçada, amassada, até o momento em que o rapaz partiu para outra, pois visualizou outra gatinha assanhada à frente.

Luzicleide ficou sozinha. Mas não se importou. Conseguiu chegar, com muito custo, à frente do palco e quase teve um orgasmo com a entrada do seu ídolo. Berrou a plenos pulmões: “Pela luz do sol que me ilumina / Não existe nada mais que me fascina / Que te ver chegar / Com a pele bronzeada e a boca vermelha / E esse sorrisão de orelha a orelha / Vai me faltando o ar”.

Suada, com o cabelo desgrenhado e as roupas empoeiradas, após o show e o bis, Luzicleide dirigiu-se à saída do parque, chamou novamente o moto táxi e foi dormir, isso pelas quatro e meia da manhã. No dia seguinte, com um gosto de cabo de guarda-chuva na boca, acessou do seu celular de última geração sua rede social e postou uma foto de momentos antes do show. Sentiu-se feliz!

Marcelo Pereira Rodrigues (MPR) é filósofo e escritor, autor de 12 livros no Brasil e alguns traduzidos para o exterior. Estará na próxima Bienal Internacional do Livro no Rio de Janeiro autografando “Perfume de Mulher”. É editor-chefe da Revista Conhece-te.

www.marcelopereirarodrigues.com.br
www.revistaconhecete.com.br

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