Trabalhar dá trabalho!

Marcelo Pereira Rodrigues (MPR)

“A Filosofia necessita do ócio” (Aristóteles de Estagira). Foi assim, refletindo sobre o que o Mestre havia dito, certa feita, que coloquei em xeque uma verdade incontestável para mim até então: as horas trabalhadas se referiam exatamente ao sucesso obtido pelo esforço e desta equação não poderia resultar outra coisa senão o bom resultado. Resumindo, se eu trabalhasse oito horas diárias, como fazem muitos, obrigados ou não, eu estaria fazendo o correto. Mas foi quando ouvi um adágio popular: “Quem trabalha muito não encontra tempo para ganhar dinheiro!”. Seria verdade? Pus-me a investigar. Na prática. Ainda mais quando terminei de ler O Ócio Criativo, de Domenico De Masi, sociólogo italiano. Recomendo. 

Como filósofo, sou sempre sacaneado por alguns amigos que perguntam se eu trabalho. Há tempos, tinha vergonha de afirmar que trabalhava muito pouco (mais para frente explicarei). Agora afirmo orgulhosamente: “Não trabalho mais de 25 horas semanais”. O que quero afirmar com isso? Valorizo hoje em dia muito o ócio, aquela preguiça do nada fazer. Tiro dia inteiro para ficar à toa, mas sempre com uma caneta e bloco de papel às mãos. Resultado disso? Excelentes ideias! Excelentes ideias geralmente proporcionam dinheiro. Dinheiro proporciona felicidade, advinda da realização pessoal e do seu trabalho como um todo.

Mas como um filósofo consegue essa proeza?! Vou responder: Quando fazemos aquilo que amamos, na verdade não sentimos o peso de uma segunda-feira quando temos que atender a um assinante ou patrocinador às oito e meia da manhã. Ofício prazeroso! Otimizo todos os contatos (o faço com prazer) e isso demanda muita energia. Uma agenda bem administrada (antecipação é uma forma de sabedoria), gestão e resultado. Tiro um dia e meio na semana para nada fazer. Mas esse “nada fazer” costuma ser muito trabalhoso às vezes. É nesse momento em que as ideias brotam como água cristalina saindo de uma mina. Não é preciso ser nenhum gênio para chegarmos à conclusão do que ocorreu: uma cabeça vazia, descansada, livre, pensa melhor. Simples assim. Quantas vezes, no intervalo de um filme no shopping, não resolvo alguma pendência? Muitas vezes.

Para um escritor, o ócio é importante para o seu ofício sagrado: não dá para escrever sem um retiro. E como escrever depois de ter cumprido oito horas desgastantes num serviço do qual não se gosta? Impossível! Isso não significa que o ócio é não produtivo, muito antes pelo contrário. Já atendi entrevistas nestes dias e o resultado sempre foi excelente! É um nada fazer que na verdade faz muita coisa.

Vejo com preocupação às oito horas de trabalho. Isso é um engessamento da criatividade, é a rotina proporcionando o cansaço e o estresse, a repetição mecânica que se apresenta no filme clássico de Charles Chaplin, Tempos Modernos.  E sentimos o peso da obrigação, agravado quando não sentimos nenhum prazer em desenvolver uma determinada função.

Claro que o meu plano para o futuro é trabalhar cada vez menos. Respondo silenciosamente quando sou admoestado por colegas que me veem de bermuda e camiseta numa plena quinta, e exclamam: “Que vida boa, hein?”. Seria injusto e até desproporcional respondê-lo à altura. Dou um sorriso enigmático e respondo a mim mesmo: “Sim, minha vida é boa demais. Faço o que quero, na hora em que quero e da forma que quero. Proporciono a outras pessoas sonharem juntas comigo e possibilito a elas um ordenado justo (pago sempre acima do valor de mercado, juro!), tenho tempo livre para a família, para meus divertimentos e cuca fresca para solucionar problemas. Tem razão, essa vida de filósofo é boa mesmo”.

Como citei Aristóteles no começo desta reflexão, findo este texto com Platão: “Uma vida não refletida não merece ser vivida”! Façam isso e ponderem se horas e mais horas dedicadas a um trabalho extenuante lhe proporciona alegria. E se vale um bom conselho: sejamos mais vagabundos, mas com criatividade, inteligência e leveza.

Escrevi este texto, num sábado (gastei exatos 35 minutos), num escritório silencioso e sentindo que na verdade estava me divertindo, como foi praxe neste dia excelente de sábado.

Marcelo Pereira Rodrigues (MPR) é filósofo e escritor. Editor da Revista Conhece-te, que circula impressa há 18 anos e meio no Brasil. Autor de 12 livros, no Brasil e no exterior. É uma das atrações da Bienal Internacional do Livro do Rio de Janeiro nesta semana.

www.revistaconhecete.com.br
www.marcelopereirarodrigues.com.br

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